Reunião com terminais, autoridades portuárias e entidades empresariais mostrou que nenhum porto do estado tem folga para absorver a carga de Itajaí e Navegantes se a barra ficar fechada por semanas
Uma semana de barra fechada em Itajaí deixa cerca de 20 navios sem atracar no complexo que o porto forma com Navegantes, e nenhum outro terminal catarinense tem pátio livre para receber essa carga. O alerta dominou a reunião promovida nesta quinta-feira (22) pela Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc), que colocou à mesma mesa terminais, autoridades portuárias, governo do estado e entidades do setor para discutir um plano de contingência diante do risco do El Niño.
A previsão é de que o fenômeno provoque chuvas intensas a partir de novembro. A lembrança de 2023, quando o fechamento do complexo levou cargas a terminais que não estavam preparados para recebê-las, pesou nas falas.
Segundo o diretor Setorial da Facisc Lito Guimarães, há uma grande preocupação do Conselho de Comércio Exterior e Negócios Internacionais (CONCENI) da Federação, que reúne exportadores, importadores, agentes de carga, operadores portuários e de logística. Foi a segunda rodada de conversas sobre o tema; a primeira ocorreu com a Secretaria de Estado de Portos.
Sem folga no curto prazo
Os números apresentados mostram o tamanho do desafio. A Santos Brasil, em Imbituba, informou que pode receber cerca de 9 mil TEUs adicionais por mês sem risco para os clientes atuais. O terminal movimentou 130 mil TEUs em setembro, recorde, e opera quatro linhas regulares. Para o representante da empresa, Leonardo Silva, o limite não está no cais, homologado para navios de 366 metros, mas no pátio. Ele ressalvou que o número é aproximado e depende da gravidade do evento.
Em Itapoá, o quadro é parecido. Segundo Alberto Machado, o terminal opera acima de 80% da capacidade já em condições normais e prepara uma ampliação de 120 mil metros quadrados, com conclusão prevista até o fim do ano. A nova área, porém, não será alfandegada e servirá como pré-stacking de exportação. Os gates, que travaram a operação em 2023, ganharam oito novas posições.
Pela JBS, Marcio Pereira avaliou que nenhum terminal do estado terá condição de absorver por muito tempo todo o volume de Itajaí e Navegantes. O destino dos navios, lembrou, depende dos armadores, que decidem se mantêm ou omitem escalas, e a decisão atinge toda a cadeia. “Exportadores precisam frear a produção ou redirecionar cargas”.
Antonio Carlos Guimarães Neto, operador portuário SC Portos, disse que cerca de 20 serviços de navegação semanais operam no complexo, e não há hoje capacidade ociosa para absorver esse volume. Já Osmari de Castilho Ribas, da Portonave, explicou que se o complexo inteiro parasse, nem Santa Catarina nem o Brasil teriam estrutura para receber a carga.
Correnteza, não areia
Artur Antunes Pereira, diretor da autoridade portuária de Itajaí, afirmou que os fechamentos recentes da barra tiveram como causa o excesso de vazão e o aumento da correnteza, não o assoreamento do canal. O porto contratou um monitoramento ambiental que deve gerar dados reais de vento e correnteza até 10 de novembro e mantém, desde maio, comissões internas com participação de cientistas da Udesc.
O diretor também detalhou as medidas técnicas em curso: o aprofundamento dos estudos hidrodinâmicos do rio, a retomada da dragagem com a chegada da draga hopper e outros estudos técnicos para uma reorientação avançada do uso do canal em situações emergenciais.
O secretário de Estado de Portos, Ivan Amaral, reforçou que a dragagem ajuda na reabertura, mas a correnteza excessiva obriga a fechar o canal. Por isso, afirmou, Itapoá e Imbituba têm condições mais favoráveis de acesso. Ele citou ainda o projeto de alargamento e dragagem de 10 quilômetros a montante do porto, ainda em alinhamento com o município sobre quem arcará com a manutenção.
Rodrigo Santa Rita, da Portonave, lembrou que o El Niño é uma certeza, mas o efeito no canal não é: “300 milímetros de chuva em dois dias e 600 milímetros ao longo de um mês produzem impactos distintos”. Ele ainda defendeu que dragagens e concessões futuras considerem um “novo normal” climático e informou que há gestões por rebocadores mais potentes, para manobras mais seguras.
Caminhos apontados
Ivan Amaral, secretário da Secretaria de Portps, Aeroportos e Ferrovias (SPAF), disse que a Secretaria de Portos vai coordenar um grupo de trabalho para logística e obras, por determinação do governador. Lucas Ataliba, diretor de Integração de Modais e Transportes Aquaviários da Secretaria de Estado de Portos, Aeroportos e Ferrovias de Santa Catarina – SPAF, apresentou a proposta de um Observatório de Dados Logísticos, para reduzir a assimetria de informação sobre capacidade dos terminais, linhas de serviço e espaço ocioso. A secretaria avalia contratar centros de inteligência e consultorias para o projeto.
Outro consenso foi a necessidade de envolver os órgãos intervenientes. O presidente da autoridade portuária de Imbituba e Alberto Machado defenderam que Receita Federal e Ministério da Agricultura (Mapa) se preparem para liberar cargas com mais agilidade. Lucas Ataliba propôs um ofício assinado pelas associações, que o Estado endossaria, para cobrar planos de contingência desses órgãos, com previsão de deslocamento de servidores. O Mapa, segundo ele, é hoje o maior gargalo de pessoal.
O diretor-executivo da Fetrancesc, Renato Macedo, pediu que o plano inclua áreas seguras de espera para caminhões e condições para os motoristas, que já enfrentaram filas de horas ou dias. Deise Santos, do Conceni lembrou que o objetivo é manter em Santa Catarina o máximo possível de carga, em razão do benefício fiscal que atrai as empresas ao estado. Já Antonio Guimarães defendeu um plano-base dinâmico, com a capacidade ociosa efetiva de cada terminal, para mostrar ao mercado que existe uma visão integrada.
Ao encerrar, Lito Guimarães afirmou que, mesmo com as limitações, saber a quem recorrer e como tratar situações de emergência já representa um grande ganho. O processo, segundo ele, ainda é “embrionário” e deverá ser ampliado, porque eventos climáticos extremos tendem a se repetir na região.










