Dependência de milho de outras regiões, capacidade de armazenagem, alternativas de transporte, planejamento territorial e mão de obra estiveram entre os temas discutidos no Fórum Santa Catarina e o Agro 5.0, realizado na sede da FACISC, em Florianópolis.
A força do agronegócio catarinense também depende do que acontece fora das propriedades rurais. Para manter a competitividade de setores como a avicultura e a suinocultura, Santa Catarina precisa garantir o abastecimento de milho, enfrentar os custos de transporte, ampliar sua capacidade de armazenagem e buscar alternativas para aumentar a produtividade. São desafios que envolvem diferentes elos da cadeia e estiveram no centro das discussões do Fórum Santa Catarina e o Agro 5.0, realizado na última quarta-feira (4), na sede da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (FACISC), em Florianópolis.
Um dos pontos de maior impacto para o estado é a dependência de milho produzido em outras regiões do país. A concentração da produção brasileira no Centro-Oeste ampliou a distância entre as áreas produtoras e os mercados consumidores do Sul, onde o grão é essencial para a alimentação de aves e suínos. O resultado é uma pressão sobre os custos de transporte e o abastecimento da indústria.
O cenário foi apresentado por Arene Trevisan, representante da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e diretor-executivo da Seara/JBS. Ao abordar a oferta de milho e as soluções estruturais para o transporte de grãos, ele destacou a necessidade de diversificar a infraestrutura logística brasileira.
Entre os pontos levantados está o abandono de aproximadamente 7,4 mil quilômetros de ferrovias no país, uma estrutura que poderia contribuir para ampliar as alternativas de transporte de cargas e reduzir a dependência do modal rodoviário. Esta pauta também está entre as frentes de atuação da FACISC, que fez estudos e projetos de viabilidade para a expansão da malha ferroviária no Oeste catarinense. A proposta busca integrar a região à malha ferroviária nacional e aos portos, ampliando as alternativas para o transporte da produção e contribuindo para a competitividade do agronegócio.
“Além da infraestrutura, a disponibilidade de motoristas também representa um desafio para o transporte de cargas. Desde 2013, o número de profissionais habilitados caiu 20%, enquanto a idade média aumentou 9%. Esse cenário reforça a necessidade de discutir alternativas para garantir o escoamento da produção”, ressaltou Trevisan.
A apresentação de Arene também chamou atenção para a capacidade de armazenagem. Em Santa Catarina, o déficit entre a produção agrícola e a capacidade estática de armazenamento passou de 2%, em 2015, para 13%, em 2024. No Brasil, chegou a 20%. A disponibilidade de estruturas para armazenar a produção é parte importante da segurança do abastecimento e da organização do fluxo de grãos.
Além da logística, o futuro do setor também passa pela capacidade de produzir mais e aproveitar melhor os recursos disponíveis. Esse foi o tema da apresentação de Lucíola Magalhães, pesquisadora e chefe-adjunta da Embrapa Territorial, que abordou o desafio da ocupação territorial estratégica de Santa Catarina. Os dados apresentados mostram que 48,6% do território catarinense tem uso agropecuário, enquanto 47,2% é destinado à proteção, preservação e conservação da vegetação nativa.
Uma outra pauta do Fórum foi a estrutura da produção catarinense. O pesquisador da Epagri, Alexandre Luis Giehl, apresentou um panorama da agricultura estadual, com dados sobre produção, conjuntura e perspectivas. Em 2025, o Valor da Produção Agropecuária (VPA) de Santa Catarina alcançou R$ 74,9 bilhões, crescimento de 12,1%. Já a produção animal respondeu por 60,7% desse total, com destaque para suínos, frangos e leite. A análise também trouxe desafios relacionados à concentração das atividades produtivas, aos custos dos insumos e à disponibilidade de mão de obra.
O perfil dos produtores é outro ponto de atenção: os dados apresentados indicam que apenas 9% têm menos de 35 anos, enquanto 21% têm mais de 65 anos. O cenário coloca a sucessão rural e a renovação das gerações entre as questões importantes para a continuidade e o desenvolvimento da atividade.
Também presente no Fórum, o presidente da FACISC, Elson Otto, destacou que a importância do agronegócio vai muito além da produção rural. Segundo ele, a cadeia do agro envolve centenas de milhares de empresas e gera oportunidades em diferentes atividades.
“São aproximadamente 467,6 mil empresas com CNPJ ligadas a essa cadeia em Santa Catarina, além de 1,6 milhão de trabalhadores. O agro não envolve apenas quem está dentro da propriedade rural, mas toda uma estrutura que movimenta a economia. Por isso, a FACISC também tem o papel de representar e defender esse setor, como fizemos durante as crises do leite e da cebola, e seguimos na defesa das ferrovias”, destacou Otto.
Hoje, a FACISC conta com 24 núcleos setoriais ligados ao agronegócio e já lançou duas edições do Mapa do Agro Catarinense, com uma terceira prevista para o primeiro semestre de 2027. O estudo apresenta um panorama estratégico do setor em Santa Catarina.
Essa diversidade também esteve presente na programação do Fórum. Pela manhã, os participantes realizaram uma visita técnica à maricultura em Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis, onde conheceram a produção de ostras de uma família da região. A FACISC esteve representada pelo diretor de Ferrovias e Agronegócio, Lenoir Broch. Santa Catarina responde por mais de 90% da produção nacional de ostras, um dado que evidencia a relevância dessa atividade para o agro catarinense.
Em sua nona edição, o Fórum foi promovido pelo Canal Rural, em parceria com entidades representativas do agronegócio catarinense. A programação também abriu espaço para manifestações de lideranças do setor e representantes do poder público, entre eles Ivan Ramos, da FECOAGRO; Clemerson Pedroso, do Sistema FAESC/SENAR; Vanir Zanata, da OCESC; Jorge Lima, do SINDICARNE; Dirceu Leite, da EPAGRI; Celes Regina de Mattos, da CIDASC; Ademir Dalla Corte, secretário de Estado da Agricultura e Pecuária; e os deputados estaduais Altair Silva e José Milton Scheffer.
As discussões mostraram que os desafios do agronegócio catarinense estão conectados: garantir insumos, melhorar o transporte e a armazenagem, ampliar a produtividade e preparar a próxima geração de produtores. Enfrentar essas questões será fundamental para preservar a competitividade de uma cadeia que movimenta empresas, empregos e diferentes regiões de Santa Catarina.
Para assistir às apresentações e acompanhar os debates, acesse a transmissão completa do Fórum Santa Catarina e o Agro 5.0.








































