Brincando com fogo




Para tentar projetar cenários políticos de um país, temos que olhar para trás. Duas frases resumem as razões para esta afirmação. A primeira é de George Santayana que disse “quem não conhece o passado está condenado a repeti-lo”. A segunda foi popularizada pelo pai do comunismo Karl Max, quando afirmou que, “a história se repete, a primeira vez como uma tragédia, a segunda como uma farsa”. Vamos ver como estas afirmações valem para o Brasil de hoje.
Eleição 1960 – Jânio Quadros
Jânio Quadros foi eleito por um partido nanico (PTN) com a promessa de varrer a corrupção e a bandalheira para longe do Brasil. O símbolo da sua campanha era uma vassoura. Ele falava uma linguagem simples, era católico e anticomunista, além de dizer que não governaria com a velha política. Algumas proezas do seu curto mandato foram proibir o uso do biquíni e as rinhas de galo. Até aqui qualquer semelhança com Bolsonaro não é mera coincidência. Depois de seis meses de mandato, deu uma trucada sem carta, enviando uma carta (com o perdão do trocadilho) de renúncia ao Senado, que foi prontamente aceita.

Parlamentarismo
Com a renúncia de Jânio deveria assumir o vice João (Jango) Goulart. Os militares vetaram sua posse, mas acabaram aceitando depois de aprovado a toque de caixa o parlamentarismo. Jango seria presidente sem mandar. Nas últimas semanas, preocupados pela queda da popularidade de Bolsonaro, com o crescimento do ex-presidente que deveria estar preso, o presidente da Câmara Arthur Lira sacou da cartola uma proposta de semipresidencialismo. Bolsonaro acusou o golpe e nomeou Ciro Nogueira (PP-PI) para a Casa Civil. Isto significa, que o governo presidencialista de Bolsonaro acabou, como o de Jango não tinha começado.
Presidência Jango – Comício Central do Brasil
Depois de três primeiros-ministros em dois anos, o plebiscito em 1963 restaurou o presidencialismo. Para Jango se manter no poder teve que radicalizar falando só com sua base da esquerda mais radical e perdendo espaço no centro. Seu suicídio político foi um discurso radical no famoso comício da Central de Brasil, no Rio de Janeiro. Qualquer semelhança com as entrevistas na saída do Palácio da Alvorada, com as motociatas ou com a ameaça de não fazer eleições em 2022 não é mera coincidência, só que com sinal trocado.
Revolução 1964
A somatória da pressão popular (Marcha da Família com Deus pela Liberdade) com políticos da UDN de Carlos Lacerda convenceu os militares a derrubar Jango em 31 de março de 1964. Demorou pouco para eles se livrarem dos políticos e assumirem o poder absoluto.
Brasil 2021
Até aqui dá para dizer que a história se repetiu com as propostas semelhantes de Jânio e Bolsonaro, no estilo populista e errático na presidência, além de não terem conseguido governar sem a velha política. Bolsonaro ameaçou mandar um jipe fechar o Supremo e convocar seu (sic!) Exército para ir às ruas, defecar (ele usou outro verbo) para as decisões do Congresso, não realizar eleições em 2021). Deu em nada. Quando viu a ameaça do semipresidencialismo (parlamentarismo disfarçado) deu a chave do cofre (Casa Civil) para Ciro Nogueira, autor das seguintes frases: “O melhor presidente da história desse país, principalmente para o Piauí e o Nordeste. Não me vejo numa eleição votando contra o Lula” e “Bolsonaro eu tenho muita restrição porque é um fascista”. Por que um presidente convidaria alguém que disse isto para ministro?
Cenário Brasil 2022
Temos três cenários possíveis: a) Continuidade das ameaças de golpe no estilo late, mas não morde; b) Tentativa frustrada de golpe e c) Golpe com sucesso
Por enquanto, aposto na primeira alternativa, por não acreditar que as Forças Armadas e a maioria do Congresso embarcam em uma aventura golpista suspendendo as eleições. Pelo menos, alguns dos parlamentares conhecem a história e sabem que não mandariam nada em um governo militar. Afastada esta hipótese, resta pedir a Deus (já que ele é brasileiro) para que ilumine os eleitores para não votar naquele que foi o presidente mais corrupto do Brasil. O Brasil é maior do que a escolha entre o populismo de direita ou de esquerda.

Sou Ismar Becker, empresário, conselheiro, mentor, estudei em Harvard Business School, no curso de Owner and President Management Program. Sou especialista no mercado de cerâmica em mais de 70 países e acumulo experiência de mais de 40 anos de viagens pelo mundo. A experiência e conhecimento que adquiri, e continuo a ganhar diariamente, busco repassar às pessoas e empresas por meio de uma visão cosmopolita e holística em novos desafios.